28.5.06

Publicidade, um assunto menor?

Temos sido falad@s nalguns blogues e até na rádio!
Há quem admita que a nossa intervenção é uma lufada de ar fresco no panorama português (que carece de blogues feministas, diga-se de passagem) e se identifique com o Colectivo, há quem não goste e há até quem se sinta ameaçad@ no seu machismo profundamente enraízado e tente tudo por tudo para desacreditar esta luta, menorizando os temas abordados aqui e recorrendo a estereótipos tão antigos que já cheiram a mofo, como por exemplo: feministas são mulheres que 1- não gostam de homens; 2- não praticam sexo há muito tempo; 3- vestem sacos de batatas desprezando as saias e os decotes e, muito importante, não sabem maquilhar-se, etc., etc., ou são homens que, das duas uma, querem ir com elas para a cama ou são "paneleiros". Quanto aos insultos, são o último reduto d@s detractores homo-machismus.
É bom saber que o Colectivo não passa despercebido na blogosfera, tendo apenas um mês de existência. E é com muito agrado que vejo os temas "menores" por nós propostos serem objecto de tanta paixão.

Mas falemos do tema escolhido para este post: a publicidade.
Já estou a ouvir comentários do género: "e lá vamos nós outra vez, isto da publicidade não interessa ninguém, não sabem falar de assuntos sérios, são tão frivol@s est@s feministas!".
Pois bem, porque será que tantas associações pelo mundo fora dedicam tanto tempo a um tema tão insípido ?
Citemos apenas três exemplos: a campanha Cambiemos la publicidad de la TV, lançada em conjunto pelo Centro de la Mujer Peruana "Flora Tristán", Movimiento Manuela Ramos, DEMUS Estudio para la Defensa de los Derechos de la Mujer, Colectivo Radial Feminista e Asociación de Comunicadores Sociales Calandria; a organização belga ZORRA; e a organização francesa La Meute que já ganhou ramificações na Suiça e no Quebéc.
As suas acções passam por incentivar @s consumidor@s à acção contra o sexismo publicitário, através do boicote do produto em causa, da apresentação de queixas junto da marca e das autoridades competentes, e também pela atribuição de prémios às agências de publicidade com vista a sensibilizá-las para a sua responsabilidade social e o seu papel na reprodução de estereótipos sexistas. Para vencer um prémios basta: promover a igualdade e o respeito pela diversidade (Premio Fem-TV; Prix Femino) ou insistir em usar clichés sexistas (Anti-Premio Sapo-TV; Prix Macho).

O império da imagem confere à publicidade um poder de influência muito grande e não só no que toca à escolha dos produtos que compramos. A publicidade não é neutra e contribui muitas vezes para dar uma imagem distorcida dos papéis da mulher e do homem na sociedade, em vez de servir a causa da igualdade de género.
Veja-se esta imagem tirada do spot publicitário da Caixa Geral de Depósitos que está actualmente a passar na TV:

É curioso que a publicidade continue a veicular imagens de outros tempos, apesar dos papéis da mulher e do homem na sociedade terem evoluído. Neste spot, as mulheres não conduzem, limitando-se ao papel da boa mãe. Diga-se de passagem que o cliché que aqui se apresenta não favorece em nada os senhores.

Que dizer da última campanha da Kellog's?
É curioso os cereais serem associados à perda de peso (conjugado no feminino, coincidência!). De certeza que existem outros argumentos de venda, tais como o bem-estar e uma alimentação saudável.
Já agora, posso sugerir que coloquem também um fato-de-banho masculino neste cartaz (suponho que Special K funcione para as mulheres como para os homens, certo?).

Não podia deixar de citar a Chupa-Chups, aliás já referida em comentários neste blog.
Deixo a cada qual o prazer de interpretar este cartaz, à luz dos links acima referidos.











Porquê falar tanto de publicidades que exploram a imagem da mulher para vender os mais variados produtos?
Será porque estão mais presentes no nosso quotidiano (outdoors, tv, revistas, embalagens de produtos), comparando com as publicidades que exploram a imagem do homem?
Será porque as imagens de homens despidos a publicitar produtos alimentares, carros ou telemóveis não são muito frequentes?
Será porque revistas como a Stuff não existem na versão masculina?

Infelizmente o caso da Dove é quase único. Quantas outras marcas apostam em mostar as mulheres na sua diversidade: baixas, altas, magras, gordas, louras, ruiva, morenas, brancas, negras, asiáticas...? Se encontrarem, façam o favor de nos enviar a dita publicidade para aqui ser divulgada!
aq

11 comentários:

The Woman Behind The Blog disse...

Eu acho especialmente divertido substituir a moça do anúncio por um homem lindo de morrer com um chupa na boca e escrever por cima: "O prazer de chupar."...
Não sei porque é que ninguém se lembrou disso... Ou lembraram?...

Taxista Feminista disse...

O que acho particularmente problemático no anúncio do Chupa Chups é o facto de se fazer publicidade com conotações sexuais para produtos dirigidos a crianças e adolescentes... De facto, são as crianças e jovens que consomem mais este tipo de doces. E pelo que me disseram hoje, este anúncio foi integrado nos "Morangos com Açúcar" - parece que num dos episódios, várias das personagens da série participaram num suposto casting para este anúncio e foi a Susana (Diana Chaves) a escolhida. Depois, o episódio retratou a preparação do anúncio. Publicidade sexualizada e camuflada (camuflada, não, totalmente descarada!) dentro do próprio enredo de uma série - isto é que é marketing socialmente responsável para crianças e adolescentes!
E que tal se nas escolas houvesse educação sexual e sensibilização sobre as questões dos média? (a este respeito, aconselho que visitem o site da Media Awareness Network que tem informação muito útil sobre promoção de "media literacy" junto de jovens, incluindo uma base de dados com sugestões de actividades para dinamizar com jovens de várias faixas etárias e sobre diferentes temas, desde a igualdade de género, o racismo, jogos de computador, desenhos animados, etc.)

Inês Meneses disse...

Volto a preocupar-me: um conteúdo sexual é um problema? O sexo é sexista?

eduardo disse...

a propósito das críticas às imagens publicitárias e discursos mediáticos sexistas que têm sido feitas neste blogue, gostava de divulgar o site de um grupo feminista francês (talvez O grupo feminista francês) Chiennes de Garde, que muitas e interessantes coisas têm feito e escrito relativamente a isso: http://www.chiennesdegarde.org

gostava de recomendá-lo especialmente à comentadora inês meneses, cujos pedidos de esclarecimento muito têm animado o debate.

Iris disse...

"O conteúdo sexual é um problema?" interroga-se a Inês.
A meu ver, depende do produto em causa, faz sentido quando se trata de vender preservativos ou pilulas, mas no caso dos doces (chupa chups) é, obviamente, problemático, com a agravante de visar um público muito novo.

Pior: o sexismo do anúncio da Chupa Chups passa pela redução da mulher ao acto de chupar! Acham que teriam colocado a mesma frase caso fosse a imagem de um homem? ou seria uma afronta demasiado grande à virilidade dos portugueses?

Anónimo disse...

bela mamada que esta última loirinha me fazia. Ou agora os broches também são sexistas?

Inês Meneses disse...

Volto aqui para me ensinarem que (1) o sexo associado a mulheres no espaço público é um problema; (2) as mulheres só podem ser associadas a sexo quando se fala de questões de saúde; (3) chupar "reduz" a mulher (esta é extraordinária! coitad@s de vocês! coitad@s de quem fizer sexo convosco!); e (4) o público mais jovem não deve ouvir falar de sexo. Volta Salazar, estás perdoado. E eu vou-me, feliz por saber que faço bem em ter deixado de vir cá.

Inês Meneses disse...

Ah, Eduardo: quem tem alguma ideia do que é o movimento associativo francês, em que para tudo há "n" grupos activíssimos, sabe que falar de O grupo ali reflecte só as escolhas pessoais de quem fala. Felizmente para eles, têm muito por onde escolher. Nós é que temos um associativismo pequeno, fraco (e, muitas vezes, de má qualidade), nós é que não temos escolha e portanto acabamos a trabalhar com pessoas com nos identificamos pouco, o que acaba por desmobilizar. É realmente um problema nacional. Claro, há alguns casos de muito bom activismo associativo por cá, apesar disto; e esses são mesmo de se louvar.

Inês Meneses disse...

...sabe, eu não passo a concordar com uma coisa só porque também é feita em França...

eduardo disse...

cara inês,
agradeço o fair play com que respondeu ao meu comentário.

queria apenas divulgar um site com reflexões que podem contribuir para uma discussão mais informada sobre várias das questões debatidas neste blogue, questões sobre as quais a inês não se tem coibido de opiniar asperamente e por vezes, na minha opinião, de forma algo precipitada. se se interessa tanto por temáticas feministas, acredito que não me leve a mal algumas sugestões de leitura, como a que fiz.

concordando ou discordando com o que lá está, o site tem muita coisa interessante. é francês como podia ser outra coisa qualquer.

chip disse...

Oi Inês,

Escreveste que aqui aprendeste que "(1) o sexo associado a mulheres no espaço público é um problema; (2) as mulheres só podem ser associadas a sexo quando se fala de questões de saúde; (3) chupar "reduz" a mulher (esta é extraordinária! coitad@s de vocês! coitad@s de quem fizer sexo convosco!); e (4) o público mais jovem não deve ouvir falar de sexo."

Ora, nenhuma dessas coisas está escrita assim em qualquer um dos posts neste blog e pelo que eu conheço dos membros do Colectivo (e conheço-os bem) nenhum deles concordaria com qualquer uma dessas afirmações.

O que acontece é que há malta que parece que vem aqui não para conhecer o que o Colectivo Feminista tem a dizer, mas sim para confirmar as ideias pré-feitas que tem sobre aquilo que acha que eles vão dizer.
Há alguns casos flagrantes de posts interpretados precisamente de forma oposta àquilo que lá está escrito! Dá a sensação que algumas pessoas só leram uma frase (ou mesmo o título) do post e desataram a disparar comentários sem ler com atenção o texto!

E quando as pessoas visitam o blog com esse tipo de atitude, pá, é díficil haver debate interessante e estimulante.